15 de jun de 2010

Autosuficiencia Nacional – Keynes - Parte I

          A partir de hoje, aqui no blog, estaremos transcrevendo um texto imperdível do Keynes, intitulado Autosuficiencia Nacional, na qual Keynes fala de Globalização, Livre Comércio, Guerras, Socialismo Soviético e, como sugere o título, Ilhamento Econômico. O texto foi apresentado durante a Conferência Finlay, na University College, Dublin en 19 de abril de 1933 e publicada na Yale Review no mesmo ano. Não há disponibilidade do artigo na Internet, não há tradução e não está à venda no Brasil. É interessante como cada parágrafo proprociona grandes reflexões ao leitor. Assim, vamos publicá-lo aos poucos, em cerca de 20 partes, durante os próximos meses. Faremos a tradução livremente. Acompanhe!

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          Fui educado como a maioria dos homens ingleses, para respeitar o Livre Comércio não só como uma doutrina econômica, que uma pessoa racional e instruída não pode duvidar, mas quase como que como uma parte da lei moral. Considerava que os comuns desvios dela eram ao mesmo tempo uma tolice e um ultraje. Pensava que as inabaláveis convicções inglesas sobre o Livre Comércio, mantidas por quase cem anos, eram tanto a explicação frente aos homens como a justificação frente aos céus de sua supremacia econômica. Ao final de 1923 escrevi que o Livre Comércio se baseava em verdades fundamentais “que, afirmadas com suas devidas qualidades, ninguém capaz de compreender o significado das palavras podia questionar.”

          Hoje em dia, examinando novamente o que havia escrito então sobre essas “verdades fundamentais”, não me encontro mais as afirmando. Sem dúvidas, a orientação de minha mente mudou e compartilhou essa mudança mental com muitas outras. Parcialmente, sem dúvida, minha experiência sobre a teoria econômica foi modificada; -não deveria acusar ao Sr. Baldwin, como o fiz então, de ser “uma vítima da falácia protecionista em sua forma mais crua” porque ele acreditava que, nas condições existentes, uma tarifa alfandegária poderia ajudar a diminuir o desemprego britânico. Mas, em primeiro lugar, atribuo minha mudança de posição por outro assunto: às minhas esperanças e temores e preocupações, junto com as de muitos, ou a maioria, creio, desta geração em todo mundo, que são diferentes do que foram. Afastar-se dos hábitos mentais do mundo do pré-guerra do século XIX é um assunto que toma tempo. É assustador a quantidade de pensamentos obsoletos que a mente de alguém arrasta inclusive depois que o centro da consciência tenha mudado. Mas, hoje em dia finalmente, a um terço do caminho até o século XX, muitos de nós estamos ainda escapando do XIX, e quando cheguemos a sua metade, pode ser que nossos hábitos mentais e o que nos preocupa seja tão diferente dos métodos e valores do século XIX, como outros séculos tem sido referido de seus predecessores.

          Dessa forma, esse dia, apresento a primeira de uma série de conferências, que terão muitas sucessivas, mas nenhuma predecessora, pronunciando-a na Irlanda, que tem levantado um enérgico pé fora de seus pântanos para converter-se no centro desse experimento econômico e que se situa quase tão longe do Liberalismo inglês do século XIX como a Russia Comunista ou a Itália Fascista ou as bestas louras na Alemanha. Sinto ser apropriado tentar uma espécie de inventário, de análise, de diagnóstico para descobrir em quê consiste essencialmente essa mudança mental, e finalmente perguntar se, na confusão de pensamento que ainda envolve esse recentemente citado entusiasmo de mudança, não estamos correndo o risco desnecessário de descartar à água suja e ao lixo pérolas da característica sabedoria do século XIX.

          O que acreditavam estar levando a cabo os liberais do século XIX, que estávam entre os mais idealistas e desinteressados dos homens?

          Eles acreditavam – e talvez seja justo apontar isso primeiro – que estavam sendo perfeitamente sensatos, que só eles tinham a visão clara, que as políticas que pretendiam interferir com o ideal da divisão internacional do trabalho eram sempre descendente da ignorância derivada do próprio interesse.

          Em segundo lugar, eles acreditavam que estavam solucionando o problema da pobreza, e resolvendo esse problema para o mundo todo, alocando da melhor maneira, como uma boa governanta, os recursos e habilidades do mundo.

          Eles acreditavam, além do mais, que estavam servindo, não somente à sobrevivência dos mais fortes economicamente, mas servindo também à grande causa da liberdade, da liberade para as iniciativas pessoais e para os dons individuais, à causa da arte criativa e à gloriosa fertilidade da mente livre, em oposto às forças dos privilégios, do monopólio e da obsolescência.

          Eles acreditavam, finalmente, que eram amigos e garantidores da paz, das boas relações internacionais, da justiça econômica entre as nações e que eram os promotores do progresso e seus benefícios.

          E se ao poeta desse período às vezes lhe surgiam estranhos desejos de vagar muito longe, onde nunca chegaria o comerciante, e agarrar a cabra selvagem pelas crinas, ali também vinha com total segurança a cômoda reação: “Eu, como a multidão de testa pequena, livre de nossos ganhos gloriosos, Como uma besta de poucos prazeres, como uma besta poucas dores!”

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Continua…

 

 

 

2 comentários:

Ressurreição Nacionalista disse...

Bela iniciativa....

Espero a continuação.

Saudações Nacionalistas!

Julie disse...

por favor, quero muito, muito mesmo, ler a continuação ! belíssima iniciativa !