9 de mar de 2009

O assalto histórico ao sonho de Brasil

          Márcio Pochmann, economista, presidente do Ipea, disse recentemente que, segundo estudos realizados no Instituto, se o Brasil tivesse mantido política econômica do governo Vargas, hoje seria a 3ª maior economia do mundo, logo atrás dos EUA e Japão e à frente da Alemanha. “O Brasil foi o segundo país do mundo que mais cresceu no período compreendido de 1890 a 1980. Esse crescimento produtivo nos retirou da posição de sermos a 56ª economia do mundo para, em 1980, nos tornarmos a oitava. E isso foi feito pela persistência e a disciplina dos que nos antecederam, que possuíam uma visão do Brasil”, explicou.

          A Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, encaminhou conjuntamente o Brasil a construir uma nova ideologia que tinha por meta superar o Brasil rural, empreender o desenvolvimento nacional e expandir o mercado interno. “Foi uma trajetória de sucesso, do ponto de vista da expansão das bases materiais da economia nacional. Evidentemente, vieram também os problemas, porque o país não fez as reformas clássicas do capitalismo, como a reforma agrária, a reforma tributária e a reforma urbana”, complementou Pochmann.

20071107_brasilia_ipea_marcio_pochmann_590          Lembra que, por não ter feito também essas reformas, o Brasil continua sendo um país onde os ricos pagam, proporcionalmente, quase 60% a menos em impostos do que a classe mais pobre e que ainda não fez as reformas do bem-estar social. “Alguns segmentos foram muito mais privilegiados do que outros”, reconheceu. No entanto, Pochmann calcula, baseado nos estudos que fez, que se tivesse sido mantida a mesma política econômica da Era Vargas, hoje o Brasil, com uma carga tributária bem menor, de 22% do produto interno bruto (PIB), teria uma receita três vezes maior do que a que hoje arrecada, com uma carga tributária de quase 40% do PIB. Além disso, ele sustenta que, mantida a linha varguista, o Brasil poderia ter agora de 80 a 90% dos trabalhadores sob a proteção da CLT, enquanto que hoje tem apenas um terço dos trabalhadores sob esta condição, também nascida na Era Vargas. A essa altura da entrevista, Pochmann lembrou Celso Furtado e citou o economista já falecido, que em 2004 afirmou que “nunca estivemos tão longe de ser o país que poderíamos ser”.

          Para Pochmann, “se não traçarmos uma estratégia clara e competente, mais dia ou menos dia seremos inapelavelmente internacionalizados”, lembrando que o exemplo da Vale do Rio Doce, criada como empresa estatal na Era Vargas, deve ser considerado para que, como país, revisemos nossos modelos. O presidente do Ipea concorda que momentos de crise mundial podem também representar oportunidades para que países com grande potencial de crescimento, caso do Brasil, reposicionem-se política e estrategicamente, e aproveitem as crises para crescer. “Foi o que fizemos na crise capitalista de 1929, pois a revolução de 30 representou uma inversão de políticas estratégicas, priorizando o desenvolvimento nacional e deslanchando o mercado interno”, recupera.

           O mesmo exemplo teria ocorrido na crise do petróleo, em 1973, quando o Brasil elaborou o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) e, no mesmo período constituiu o Pró-Álcool. “Na crise atual, também há oportunidade para o Brasil se colocar”, ressaltando que, agora, no segundo governo Lula, está sendo reorganizada uma maioria política para dar sustentação à elaboração de um pensamento estratégico de longo prazo.

          Pochmann apontou a crise da dívida externa em 1980 – imposta pela oligarquia financeira mundial – como o fator político determinante para a desconstrução daquela maioria política desenvolvimentista organizada pela Revolução de 1930, quando a prioridade da política econômica passa a ser o controle da inflação.

          “O Brasil dos anos de 1970 e 1980 tinha um modelo de desenvolvimento baseado nas empresas estatais que produziam tecnologia. Era um tripé: o capital externo, o capital nacional e o setor produtivo estatal. Mas o capital externo não trouxe produção de conhecimento, isto foi feito no setor estatal. Petrobras, Telebrás, Mineração, Vale do Rio Doce, tudo vem da visão estratégica montada lá atrás, na Era Vargas”, destacou.

         Com a crise da dívida externa nos anos de 1980, surge a visão equivocada que tem como lema “quanto menos Estado, maior seria o setor privado”. “Nada disso aconteceu. A redução do Estado resultou em menor setor privado nacional, a saída do Estado expandiu o capital externo”, avalia, lembrando que as 500 maiores empresas que atuavam no Brasil em 1980 eram dois terços de empresas nacionais privadas ou estatais, uma situação que hoje se modificou para apenas 50% de capital nacional, enquanto o capital externo avançou para dominar metade da economia brasileira.

          “Transferimos 15% do PIB para o capital internacional e criamos uma nova dependência”, disse. Condição que pode ser evidenciada ao se analisar o setor de patentes. Enquanto o setor acadêmico nacional e tecnológico é responsável por 2% da produção de conhecimento científico internacional, temos apenas 0,2% das patentes mundiais, ao passo que países como China, Malásia, Índia e Coréia do Sul, com forte participação do Estado, aumentaram significativamente sua participação nas patentes em nível internacional, argumentou o presidente do Ipea, órgão que está coordenando um trabalho para uma nova política estratégica para o Brasil, sustentada nas novas condições políticas surgidas no segundo governo Lula, o que explicaria a sua própria presença na direção da entidade, tão importante para o país.

Um comentário:

ordembrasilica disse...

Sempre é tempo par retomarmos o fio de meada e por novamente o Brasil nos trilhos!

Saudações Nacionalistas!