3 de dez de 2008

Keynes, um grande cretino

          Parece engraçado, nós que sempre partilhamos das idéias de Keynes, rotulá-lo de cretino. Pois bem, não é exatamente isso. A frase que intitula essa crônica é de um professor marxista da práxis  (que preservo o nome por questões pouco óbvias). De certa feita, o john_maynard_keynes_large ouvi dizer: “Keynes foi um cretino como todos os outros, mas ele foi  um grande cretino”. A frase, além de cômica, me chamou a atenção. Certamente existem raríssimos marxistas que desejam a continuidade do sistema capitalista, e como Keynes buscava a manutenção desse sistema, dizendo, inclusive, que “não acredita que nenhum outro sistema alternativo pode ser tão eficiente para o progresso da humanidade quanto o sistema capitalista”, então é muito provável que a quase totalidade dos marxistas considerem Keynes mais um “lacaio do capital” entre tantos economistas capitalistas da vertente ideológica que forem, mas percebe-se que mesmo esses marxistas reconhecem a grandeza de Keynes. Dizer que Keynes foi um “grande cretino”, vindo de um marxista, é, antes de insulto, um elogio.

          É possível os marxistas sintam certo rancor de Keynes, pois, não fosse por ele, possivelmente hoje viveríamos num modelo socialista – basta lembrar como o mundo estava abalado na época: a primeira Guerra Mundial (1914-1918), depois a Crise de 1929 e mais tarde a segunda Guerra Mundial (1939-1945), se fizermos uma somatórias desses emblemas, veremos desemprego em massa, fome, miséria, governos sem capacidade fiscal, e a inexistência de um modelo de qualidade que pudesse substituir o modelo de livre-comércio, enfim, um desespero total, que alastrava uma legião de revoluções pelo mundo, como a Revolução soviética em 1917, a ascensão de Hitler em 1933 (e o alastramento do fascismo em diversos países), e até a Revolução chinesa em 1949. É evidente que não fosse a genialidade de Keynes para constituir um modelo eficiente para racionalizar a maneira como a política econômica vinha sendo conduzida até o momento, não fossem as idéias keynesianas, o sistema capitalista teria entrado em colapso. E notem que, quando mais uma vez, nos dias atuais, o horripilante modelo de livre-mercado volta a ser dominante entre os governos e volta a causar a única coisa que pode advir de um modelo irracional, ou seja, a crise, percebam que novamente aparece Keynes para salvar a(s) pátria(s). Os marxistas respeitam Keynes porque ele soube ser racional, descreveu modelos de políticas econômicas eficazes e bem fundamentadas, e, antes de tudo, tinha como ele mesmo dizia, “a humildade dos dentistas” que até hoje falta a muitos dos nossos economistas.

          Bom, enfim, é uma pena que os governos costumam esquecer-se de Keynes quando as coisas vão bem, mas aí surge a crise, e, num passe de mágica, plim-plim, todos somos keynesianos (exceto os marxistas, claro). Menos mal, antes tarde do que nunca.

Um comentário:

JOÃO MELO disse...

Josué, como Economista não posso deixar de ser fã do grande John Maynard Keynes. Gosto tanto dele que meu e-mail no hotmail é em sua homenagem. Inteligentíssimo ele desenvolveu a macroeconomia como nunca antes neste país rsrsrs digo, no mundo, mas não posso concordar integralmente contigo com relação ao seu pensamento sobre o livre mercado. Precisamos de Estado, sim. Mas, o livre mercado é indispensável.
Seu leitor daqui do fim do mundo da selva amazõnica, João Melo