26 de nov de 2008

O que fazer contra a crise?

          O Brasil perdeu recentemente dois grandes instrumentos que são vitais para evitar o aprofundamento da crise. Perdê-los foi, não só um erro, mas uma irracionalidade total da parte de quem os fez extintos. Esses instrumentos precisam voltar.

          O primeiro erro foi permitir que as empresas exportadoras mantivessem o dinheiro oriundo das exportações em contas no exterior. Isso não pode continuar acontecendo porque, além de restringir a entrada dessas divisas que fazem parte da nossa balança comercial, e, portanto, não podem ser deixadas ao bel prazer em outros países (para a felicidade deles), também favorece inevitavelmente a especulação contra o Real, ou seja, se a empresa sabe que os seus Dólares precisam obrigatoriamente vir rapidamente para o Brasil, onde serão obrigatoriamente convertidos em Reais pelo BC, e, portanto farão parte do seu patrimônio, as empresas jamais irão apostar contra o Real porque isso passa a ferir o seu próprio patrimônio, mas mantendo os Dólares em outros países, pouco lhe importará as flutuações diárias no câmbio – elas vão esperar até que o Real esteja bastante depreciado para então resgatar esse dinheiro.

          O segundo mecanismo que precisa ser resgatado se trata do controle do fluxo de capitais. Um bom modelo a seguir é a “Lei dos lucros extraordinários” idealizada no segundo governo de Getúlio Vargas, que visa limitar o envio de lucros e capital das multinacionais às suas matrizes no exterior. Isso é importante para que o Brasil não sofra tanto com a falta de liquidez na economia, pois é muito comum nesses momentos de crise, que as multinacionais passem a enviar tudo o podem para evitar a falência da matriz. Isso acaba desvalorizando cada vez mais o Real (já que elas precisam comprar dólares para remeter) e reduz drasticamente a taxa de poupança (que acaba reduzindo o crédito interno) e reduz, principalmente, o investimento que essas empresas poderiam estar fazendo no Brasil.

          Além dessas duas medidas, o governo deve criar um plano financeiro que aumente a renda das famílias mais pobres para que elas consumam mais – todos nós sabemos que consumo é essencial para o crescimento econômico. E esse adicional de renda tem que ser para as famílias mais pobres porque elas estão menos propensas a poupar, ou seja, gastam praticamente tudo que ganham, e em momentos de crise, sem desconsiderar a importância da poupança, é mais necessário que as famílias gastem do que poupem. Na verdade, a base desse plano já existe: é o Bolsa-família – já está tudo pronto, é só injetar mais dinheiro e aumentar o número de famílias atendidas, nem precisa ser aprovado pelo Congresso.

           Aliás, os gastos do governo são importantes para manter uma boa faixa de consumo e investimento, e também para manter o crédito em um bom nível: três coisas que as crises costumam filadesopa1929atacar  de pronto: se as empresas não investem, se as famílias não consomem, se há fuga de capitais, quem pode manter a economia ativa? Os governos. Se esses problemas não forem combatidos, só se pode esperar a redução da atividade produtiva e consequentemente o desemprego em massa que é o maior mal de uma crise econômica.

          Uma das grandes dúvidas também é: manter os juros altos ou baixá-los? Se as medidas que eu citei acima forem seguidas, é bem possível e muito benéfico reduzir os juros, afinal, isso cria maior facilidade para investimentos, reduz os gastos do governo com pagamento dos juros da dívida (podendo transferir esse excedente para outros gastos mais racionais), e preserva mais a renda do povo que transferirá essa economia para o consumo. Mas, se as medidas que eu citei acima forem negligenciadas, então será necessário manter os juros altos para servir de atrativo ao capital estrangeiro, tudo para evitar o sumiço de crédito, a rápida depreciação do Real frente ao Dólar e o assalto às nossas reservas internacionais.

          Essas são as medidas imediatas e urgentes que precisam ser tomadas; elas ajudam a contornar a crise – vejam que eu não disse resolver o problema, mas contorná-lo. Para resolver o problema, a história é mais complicada ainda, são necessárias medidas regulatórias de médio e longo prazo, e precisam, inclusive, serem medidas globais. Isso veremos em breve aqui no blog Economia Política Brasileira. Acompanhe.

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