4 de nov de 2008

ITAÚ-UNIBANCO: realidade, utopia ou oportunismo?

          Os grupos Itaúsa e Unibanco, ambos de controle nacional brasileiro, anunciaram hoje (03/11/2008) a fusão das suas operações, ou seja, tornaram-se um único grupo. Embora haja dentro destes grupos diversos ramos de atuação (como a Itautec, itau1 de tecnologia, do Itaúsa), a principal operação – e grande motivação do negócio – é a financeira, particularmente a operação bancária de ambos, o Banco Itaú e o Banco Unibanco, cuja fusão resultará, não só no maior banco do país em ativos (R$ 575 bilhões) – ultrapassando o Banco do Brasil (R$ 404 bilhões) e o Bradesco (R$ 349 bilhões) – como também será o maior conglomerado financeiro (somando os bancos, financeiras, seguradoras etc.) do hemisfério sul do planeta e o 20º grupo com maior valor de mercado do mundo. Entre os motivos que levaram os controladores a firmar o negócio, estavam, evidentemente e principalmente, as movimentLogo%20Unibancoações dos concorrentes - se é que existe concorrência – como o Banco do  Brasil que vinha incorporando, ou negociando incorporações de bancos públicos estaduais (BESC, Nossa Caixa) e o espanhol Santander que comprara recentemente o Banco Real (Operações do ABN Amro no Brasil), mas, segundo os controladores, a possibilidade de internacionalização e de emergir como uma das grandes instituições financeiras multinacionais na, como diria o presidente Lula, “nova ordem econômica mundial” pós-crise, veio a calhar como um decisivo estímulo a mais.

          Restam-nos as dúvidas que intitularam este artigo: realidade, utopia ou oportunismo?

          Oportunismo, isso é óbvio que sim, claro, não poderia deixar de ser: se você vir um banqueiro pulando de uma janela, pule logo atrás, certamente é um bom negócio. Ora, o Itaú e o Unibanco estavam sufocados pelos demais colegas de profissão, agora ganham fôlego na ponteira do mercado, ultrapassando, inclusive, o nosso grande banco público que nunca antes na história desse país havia sido ultrapassado. De certa forma, os controladores, representados por Roberto Setubal (Itaúsa, à esquerda na foto) e Pedro MoreirSetubal e Salles, do ITAU-UNIBANCO a Salles (Unibanco), não mediram esforços em desviar os olhares da sociedade para os problemas da alta concentração do setor bancário no Brasil, e o próprio advento de uma instituição financeira privada maior do que a maior instituição financeira estatal que é o Banco do Brasil. Com frases como "Trata-se de uma instituição financeira com a capacidade de competir no cenário internacional com os grandes bancos mundiais" ou "Nós (Brasil) precisamos de um banco internacional. Esse banco, com uma base de capitalização forte, terá capacidade de financiar as empresas que estão se internacionalizando" e ainda “isso é natural dentro do processo de consolidação vivido pelo setor financeiro", demonstram como ambos se empenharam em trazer o fato da fusão para um ambiente de aceitação por parte da sociedade, visando, principalmente, a aprovação do Banco Central, da CVM e do CADE, já que sem o consentimento desses três, o negócio não pode acontecer.

          Mas, também, além de oportuna, pode ser que a fusão realmente tenha intenção de construir um dos “big business” mundiais. Então, será ótimo para o Brasil, que não tinha nenhum banco com capacidade de ser uma marca mundial. Imaginem um inglês falando “Banco do Brasil” ou “Bradesco”, mas certamente ele pode arriscar “Itaú”, deve ficar mais ou menos “Aitaú”. Não há dúvida que muitos dos grandes bancos da atualidade possam vir a se enfraquecer cada vez mais nos países centrais ou mesmo a falir, como aconteceu com o Lehman Brothers, então, o Itaú tem a chance de aproveitar o nicho de mercado que advir depois de passada a turbulência da atual crise hegemônica para ajudar o Brasil a alcançar uma situação de maior poderio político, militar e econômico no novo cenário internacional. Basta lembrar que o Itaú aparece com capacidade de comprar, e comprar a preço de banana, diversos bancos que passam por dificuldades financeiras nos países ricos.

          O Itaú tem experiência suficiente para atuar de forma segura e eficaz em outros mercados caso venha a crescer como promete; a própria fusão com o Unibanco dará experiência suficiente para o sucesso das possíveis compras no exterior. Portanto, só podemos imaginar utopia por parte dos controladores do novo grupo em suas juradas intenções internacionais, se estes não conseguirem desenvolver uma estratégia eficiente de internacionalização, se não souberem resistir aos efeitos da crise ou não se adaptarem ao novo cenário mundial que está por vir.

          Agindo da maneira certa, sendo eficiente em suas operações e sendo verdadeiras as intenções internacionais do grupo Itaú-Unibanco S.A., é muito provável que emirja daí – espero – uma das novas multinacionais que figurarão no futuro após a queda da hegemonia norte-americana e européia que aos poucos vai se consumando.

Um comentário:

andre_abdala disse...

Pode um haver um oportunismo, considerando o atual momento econômico, na fusão ao se beneficiar de apoio político na chancela pelos órgãos competentes. Mas, o fato é que um país, para se desenvolver, necessita ter um mercado interno forte e uma capacidade de expansão comercial no cenário internacional. E esse novo banco (Itaú-Unibanco) representa uma oportunidade para as empresas brasileiras captarem com menos obstáculos dólares para financiarem seus negócios, embora, saibamos que as fusões, de modo geral, arruínam a concorrência e quem sofre com maior intensidade é o consumidor. Entretanto, nesse caso, observando a atual "onda econômica" e o que ela pode vir a representar, talvez num futuro remoto, acredito ter sido bom para o país.