4 de set de 2008

Problemas à vista

As negociações da Rodada Doha para a liberalização do comércio mundial serão retomadas "em nível de altos funcionários" a partir de terça-feira em Genebra, anunciou nesta quinta-feira em Oslo o diretor geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy.
Em visita à Noruega, após viagens recentes a Nova Délhi e Washington, Lamy assegurou ter percebido "uma disposição política, sobretudo na Índia e Estados Unidos" para salvar a Rodada Doha.
Realmente para os países pobres, pobres mesmo, um comércio livre é muito bom, afinal, já se passaram cerca de 150 anos desde as Revoluções industriais e eles não conseguiram se industrializar; com a Rodada de Doha aprovada, eles serão beneficiados pelo aumento da importação de seus gêneros alimentícios, o que, pelo menos, os tirará da extrema miséria que vivem. Mas é certo que serão eternamente pobres, afinal, passará a ser praticamente impossível se industrializarem, não há como competirem com tudo que os países desenvolvidos (ou em desenvolvimento) oferecem, que é, entre outras coisas, estabilidade política, trabalho qualificado, infra-estrutura, capital financeiro aos montes, bolsas de valores, enfim, quando atingirem os níveis atuais de desenvolvimento, os países industrializados já estarão bem à frente.
Entretanto, me preocupo com o Brasil, já que possuímos um modesto porém existente nível de industrialização e grande potencial de crescimento. Em uma situação de comércio liberalizado, passamos a concorrer diretamente com países como a China, que podem produzir por valores alarmantemente menores e, portanto, corremos o risco de perder essas indústrias nacionais. Será muito mais vantajoso para qualquer industrial (inclusive os brasileiros) instalarem suas fábricas na China ou na Índia e exportar para cá. E isso pode acontecer, não só porque eles poderão oferecer um preço mais baixo por aqui, mas também porque qualquer produção brasileira de bens de consumo não encontraria mercado em quaisquer lugares do planeta. O Brasil se transformaria em um grande campo de soja e cana-de-açúcar.
Mas então, nos perguntamos, qual a solução? Basicamente o único instrumento sensato, seriam acordos bilaterais. Por exemplo, em um acordo de livre comércio entre E.U.A e Gana, certamente Gana sairia da miséria absoluta, sem que haja prejuízos aos outros países.
Aliás, um acordo como o de Doha, me parece que prejudicaria todos os países ricos e em desenvolvimento. Primeiro porque nos países ricos veríamos uma legião de agricultores desempregados e nos países em desenvolvimento uma fuga de indústrias que iriam preferir produzir em países com mão-de-obra mais barata ou menores impostos. Também se travaria uma verdadeira guerra fiscal entre os países, ocasionando grande queda da arrecadação de impostos. Também sofreriam as populações destes países que passariam a ser assaltadas ainda mais com impostos maiores, principalmente impostos diretos, em prejuízo dos mais pobres. Por fim, vale sinalizar uma certa inflação dos alimentos nos países pobres, já que, como os mercados europeu e amenricanos são atualmente protegidos, lá os alimentos são bem mais caros, já por aqui, bem mais baratos, tendendo então a um equilíbrio de preços generalizado.
Ao fim das contas, de todos os países, o Brasil seria o mais prejudicado, afinal, é o que tem os salários mais altos em relação a média de especialização da mão-de-obra, e o mais crucial: tem a maior carga tributária do mundo. Seria o nosso fim, sem dúvida.

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