31 de ago de 2008

O livre comércio é uma falácia

Ele já fez sucesso com seu livro "Chutando a escada", agora volta ainda mais impressionante em "Bed Samaritans", lançado esse ano nos E.U.A., Ha-Joon Chang, economista sul coreano, dá uma mensagem polêmica: os emergentes devem resistir à pressão dos ricos. Isso significa criar barreiras de importação e proteger indústrias estratégicas. Se seguirem os mandamentos dos líderes, acabarão vítimas dos "maus samaritanos", os países ricos que usaram o protecionismo para se desenvolver, mas que agora posam como missionários do livre comércio.
O autor parte do exemplo da Coréia do Sul com a credencial de observador privilegiado. Nascido em Seul, em 1963 (quando a Coréia tinha renda per capita de 82 dólares, menos da metade da renda de Gana na época), ele narra em sua obra que viu o país progredir da pobreza extrema ao clube dos ricos. Mas é à história de países como Inglaterra e Estados Unidos que recorre. Os primórdios da história do protecionismo, segundo ele, começam em 1489, quando a Inglaterra começou sua política de industrialização. Henrique VII e Elizabeth I fizeram tudo ao seu alcance para roubar da Bélgica e da Holanda a liderança na produção de tecidos de lã, a indústria de alta tecnologia da época. Para isso, restringiram a exportação de matéria-prima, espionaram, atraíram trabalhadores estrangeiros e distribuíram subsídios e concessões de monopólio a manufaturas inglesas. A defesa da indústria nacional perdurou por mais de três séculos, quando a Inglaterra deixou de ter competidores à altura. A partir de então, os ingleses, para expandir seus mercados, abraçaram o livre comércio. No período que durou de 1860 até a Primeira Guerra Mundial, eliminaram as tarifas alfandegárias e passaram a defender com veemência que o mundo todo seguisse o mesmo caminho.
Os americanos foram igualmente contraditórios. Logo após a independência, aumentaram progressivamente suas tarifas de importação. O líder intelectual desse movimento foi o primeiro secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, um dos criadores da expressão "indústria nascente". Segundo sua argumentação, que vingou como a principal defesa do protecionismo, uma indústria nacional promissora merece resguardo até que tenha escala para competir com os concorrentes internacionais de porte. Ao longo do século 19 e até o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos mantiveram tarifas médias de importação no patamar de 40% (hoje são de 3%). Apenas a partir de 1945, quando representavam metade da economia mundial, começaram a baixá-las. Chang reconhece que, entre as décadas de 50 e 70, período da Guerra Fria, os americanos foram líderes benevolentes. A competição com a União Soviética os levou a abrir seus mercados para os aliados sem esperar reciprocidade. Os Tigres Asiáticos -- inclui-se aqui a Coréia do Sul -- e o Japão aproveitaram e se tornaram casos exemplares de prosperidade econômica a jato. Mas, dos anos 80 em diante, os Estados Unidos passaram a ser o principal mau samaritano no cenário da globalização. O principal instrumento do país nessa nova jornada passou a ser o que Chang batiza de "trindade diabólica" -- composta pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio. A Coréia soube se livrar da dependência americana nos anos 60, antes de cair nas armadilhas da nova política global dos Estados Unidos.
Segundo Chang, mesmo os países que hoje defendem o livre comércio ainda usam o controle rígido em algumas searas. É o que acontece, segundo ele, no caso da crescente rigidez dos direitos de propriedade intelectual. Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Japão e a própria Coréia foram grandes piratas quando precisaram absorver tecnologia. Agora que são geradores, querem bloquear o acesso de outros países a esse atalho.
O autor também afirma que os países ricos formaram um exército de ideólogos, nas próprias universidades, para espalhar a ideologia liberal pelo mundo. Segundo ele, esses teóricos reescreverem a história e omitem casos recentes de sucesso de quem cresceu contrariando as regras impostas pelos países ricos -- como o rápido crescimento brasileiro entre as décadas de 50 e 70.
Se formos analisar a experiência histórica, constataremos que a industrialização da Inglaterra, dos E.U.A., da Coréia do Sul e de tantos outros países desenvolvidos, foram puramente artificiais, ou seja, garantindo o mercado interno aos produtores nacionais.

Título: Bad Samaritans
Editora Random House, 288 págs.

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