2 de set de 2010

Keynes – Autosuficiência Nacional – Parte II

          Que problema encontramos aí? Superficialmente, nenhum. Não obstante, muitos de nós não estamos satisfeitos com ela como uma teoria política que funciona. O que há de errado? Penso que devemos descobrir a fonte de nossas dúvidas, não através de um ataque frontal senão por um passeio – passeando por um caminho diferente para encontrar o lugar de desejo do nosso coração político. Assim, tratarei de relacionar a nova orientação tão estreitamente como seja possível à anterior.

          Para começar, o tema da paz. Somos hoje pacifistas com tanta convicção que, se o internacionalista econômico pudece conquistar a paz, de pronto ele reconquistaria nosso apoio. Mas já não parece óbvio que a grande concentração de esforços nacionais para conquistar o comércio exterior, que a penetração da estrutura econômica de um país pelos recursos e influência de capitalistas estrangeiros, que uma dependência muito estreita de nossa própria vida econômica pelas instáveis políticas econômicas dos países estrangeiros sejam resguardos e garantias da paz internacional.

          É mais fácil, à luz da experiência e da previsão, argumentar totalmente o contrário. A proteção dos interesses estranhos a um dado país, a conquista de novos mercados, o progresso do imperialismo econômico – são uma parte apenas evitável de um esquema de coisas que aspira ao máximo da especialização internacional e à máxima difusão geográfica do capital, onde seja que asente sua propriedade. Aconselháveis Políticas nacionais poderiam, em geral, ser mais fáceis de se alcançar, se o fênomeno conhecido como “escape de capital” pudece ser exterminado. A separação entre a propriedade e a real responsabilidade da gestão é grave dentro de um país quando, como resultado de uma empresa de capital aberto, se rompe a propriedade entre inúmeros indivíduos que compram papéis hoje e vendem amanhã carecendo tanto do conhecimento quanto da responsabilidade para o que eles possuem momentaneamente. Mas quando o mesmo princípio se aplica intrnacionalmente, diga-se, em tempos de tensão, isso se torna intolerável – sou irresponsável em relação ao que eu possuo e aqueles que operam o que eu possuo são irresponsáveis em relação a mim. Podem existir alguns cálculos financeiros que demonstram que o exposto a continuação é vantajoso, que minhas poupanças deveriam ser investidas em qualquer parte do globo habitável onde se apresente a maior eficiência marginal do capital ou a maior taxa de lucro. Mas a experiência indica que a distância entre propriedade e opração – que históricamente está simbolizada por vocês na Irlanda num feudalismo ausente – é perversa nas relações entre os homens, e que provavelmente – ou seguramente – no longo prazo, estabelecerão tensões e inimizades que leverão a nada os cálculos financeiros.

15 de jun de 2010

Autosuficiencia Nacional – Keynes - Parte I

          A partir de hoje, aqui no blog, estaremos transcrevendo um texto imperdível do Keynes, intitulado Autosuficiencia Nacional, na qual Keynes fala de Globalização, Livre Comércio, Guerras, Socialismo Soviético e, como sugere o título, Ilhamento Econômico. O texto foi apresentado durante a Conferência Finlay, na University College, Dublin en 19 de abril de 1933 e publicada na Yale Review no mesmo ano. Não há disponibilidade do artigo na Internet, não há tradução e não está à venda no Brasil. É interessante como cada parágrafo proprociona grandes reflexões ao leitor. Assim, vamos publicá-lo aos poucos, em cerca de 20 partes, durante os próximos meses. Faremos a tradução livremente. Acompanhe!

***

 

          Fui educado como a maioria dos homens ingleses, para respeitar o Livre Comércio não só como uma doutrina econômica, que uma pessoa racional e instruída não pode duvidar, mas quase como que como uma parte da lei moral. Considerava que os comuns desvios dela eram ao mesmo tempo uma tolice e um ultraje. Pensava que as inabaláveis convicções inglesas sobre o Livre Comércio, mantidas por quase cem anos, eram tanto a explicação frente aos homens como a justificação frente aos céus de sua supremacia econômica. Ao final de 1923 escrevi que o Livre Comércio se baseava em verdades fundamentais “que, afirmadas com suas devidas qualidades, ninguém capaz de compreender o significado das palavras podia questionar.”

          Hoje em dia, examinando novamente o que havia escrito então sobre essas “verdades fundamentais”, não me encontro mais as afirmando. Sem dúvidas, a orientação de minha mente mudou e compartilhou essa mudança mental com muitas outras. Parcialmente, sem dúvida, minha experiência sobre a teoria econômica foi modificada; -não deveria acusar ao Sr. Baldwin, como o fiz então, de ser “uma vítima da falácia protecionista em sua forma mais crua” porque ele acreditava que, nas condições existentes, uma tarifa alfandegária poderia ajudar a diminuir o desemprego britânico. Mas, em primeiro lugar, atribuo minha mudança de posição por outro assunto: às minhas esperanças e temores e preocupações, junto com as de muitos, ou a maioria, creio, desta geração em todo mundo, que são diferentes do que foram. Afastar-se dos hábitos mentais do mundo do pré-guerra do século XIX é um assunto que toma tempo. É assustador a quantidade de pensamentos obsoletos que a mente de alguém arrasta inclusive depois que o centro da consciência tenha mudado. Mas, hoje em dia finalmente, a um terço do caminho até o século XX, muitos de nós estamos ainda escapando do XIX, e quando cheguemos a sua metade, pode ser que nossos hábitos mentais e o que nos preocupa seja tão diferente dos métodos e valores do século XIX, como outros séculos tem sido referido de seus predecessores.

          Dessa forma, esse dia, apresento a primeira de uma série de conferências, que terão muitas sucessivas, mas nenhuma predecessora, pronunciando-a na Irlanda, que tem levantado um enérgico pé fora de seus pântanos para converter-se no centro desse experimento econômico e que se situa quase tão longe do Liberalismo inglês do século XIX como a Russia Comunista ou a Itália Fascista ou as bestas louras na Alemanha. Sinto ser apropriado tentar uma espécie de inventário, de análise, de diagnóstico para descobrir em quê consiste essencialmente essa mudança mental, e finalmente perguntar se, na confusão de pensamento que ainda envolve esse recentemente citado entusiasmo de mudança, não estamos correndo o risco desnecessário de descartar à água suja e ao lixo pérolas da característica sabedoria do século XIX.

          O que acreditavam estar levando a cabo os liberais do século XIX, que estávam entre os mais idealistas e desinteressados dos homens?

          Eles acreditavam – e talvez seja justo apontar isso primeiro – que estavam sendo perfeitamente sensatos, que só eles tinham a visão clara, que as políticas que pretendiam interferir com o ideal da divisão internacional do trabalho eram sempre descendente da ignorância derivada do próprio interesse.

          Em segundo lugar, eles acreditavam que estavam solucionando o problema da pobreza, e resolvendo esse problema para o mundo todo, alocando da melhor maneira, como uma boa governanta, os recursos e habilidades do mundo.

          Eles acreditavam, além do mais, que estavam servindo, não somente à sobrevivência dos mais fortes economicamente, mas servindo também à grande causa da liberdade, da liberade para as iniciativas pessoais e para os dons individuais, à causa da arte criativa e à gloriosa fertilidade da mente livre, em oposto às forças dos privilégios, do monopólio e da obsolescência.

          Eles acreditavam, finalmente, que eram amigos e garantidores da paz, das boas relações internacionais, da justiça econômica entre as nações e que eram os promotores do progresso e seus benefícios.

          E se ao poeta desse período às vezes lhe surgiam estranhos desejos de vagar muito longe, onde nunca chegaria o comerciante, e agarrar a cabra selvagem pelas crinas, ali também vinha com total segurança a cômoda reação: “Eu, como a multidão de testa pequena, livre de nossos ganhos gloriosos, Como uma besta de poucos prazeres, como uma besta poucas dores!”

***

Continua…

 

 

 

30 de mar de 2010

Auditoria Cidadã

Com mais de 2 trilhões de Reais em dívida pública, grande parte das arrecadações da União são desviadas para o pagamento do serviço dessa dívida. Em 2009, foram pagos 380 bilhões em juros e amortizações (cerca de 32 vezes o que foi gasto com bolsa família ou 35% do orçamento anual.) A história da nossa dívida é repleta de histórias mal-contadas e é muito possível que o povo brasileiro esteja sendo roubado, no sentido estrito do termo, em sifras muitíssimo maiores que aquelas oriundas dos escândalos políticos cotidianos. Numa tentativa de rever essa questão, está em andamento uma comissão parlamentar sobre a Dívida Pública, é a CPI da dívida. Acompanhem no site:

http://www.divida-auditoriacidada.org.br/

24 de fev de 2010

Faixa Livre

Criado em 1994 no Rio de Janeiro, o Programa Faixa Livre é, de longe, o canal de comunicação mais comprometido com o Brasil e nosso povo na atualidade. Dele, participam grandes nomes da sociedade brasileira, todos unidos na defesa de um projeto de nação que há muito vem sendo objetivado. Nas palavras da própria equipe, o programa é formado por entidades "que se irmanam na luta por um Brasil socialmente mais justo, politicamente mais democrático e, enquanto Nação, mais soberano". Fica a dica.

http://www.programafaixalivre.org.br/

1 de fev de 2010

Brizola, por Giba Vasconsellos

          Conheci Gilberto Vasconcellos no primeiro encontro nacional da Rede Brasileira de Estudos Latino Americanos, ocorrido em Florianópolis no final do ano passado. Figura sem par, Giba é dono de um profundo comecimento da história política do nosso país, combinado a um grande sendo de humor. Sociólogo, professor, escritor e jornalista. É impossível ouvi-lo por cinco minutos sem rir, característica que transforma sua palestra em uma espécie de “standard comedy acadêmica”. A certa altura, reclama ele: “a comunidade acadêmica não me cita! Não me cita!”, mostrando indignação pelo desconhecimento da sua vasta obra literária. “Se fosse só na USP, eu entenderia”, completa. Giba não esconde seus ídolos: Glauber Rocha, Darcy Ribeiro e Gunder Frank são alguns dos mais lembrados; entretanto, há um pelo qual Giba tem um apreço especial: Leonel de Moura Brizola. “O velho Briza”, dizia ele, gabando-se de ser seu maior biógrafo. Abaixo, um texto imperdível de Giba sobre Brizola.

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          E o que acontece hoje com a gauchada? O minuano ficou tucano. Em 1945 Brizola era mais lúcido politicamente do que um gênio cinqüentão como Oswald de Andrade, percebeu a cilada(montada pelo imperialismo americano) das liberdades democráticas. Ficou politicamente com o Vargas derrubado. Será que Vargas foi um luxo que jamais poderá se repetir? Como Perón na Argentina? Como Cardenas no México?

          A progressão do imperialismo cada vez mais mediocriza os presidentes. Vide o Palácio do Planalto de 1964 para cá. A banalização do Presidente é deprimente. O bacana deixa o Palácio depois de 4 anos como se estivesse saindo de um programa de auditório. Acabei, Mãe! Isso num país em que Presidente da República já deu um tiro no coração.

          É ou não é chanchada ver um FHC debruçado num caixa  eletrônico do Banco Santander? Ou Lula pegar seu boné e ir para São Bernardo jogar sinuca com birita? Brizola era de outra estirpe, à Salvador Allende. O Deputado Florestan Fernandes vacilou ao chamá-lo de “machão”.

          Porta-voz da telefonia norte-americana, a USP espalhou que Brizola nunca havia lido um livro. Repetindo o que dizia Lincoln Gordon, o embaixador golpista de Harvard. Não me foi dada a oportunidade de conversar com Brizola sobre Antonio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda, os dois amigos de Darcy Ribeiro e fundadores do PT em São Paulo.

          FC Leite Filho privou vários anos com o biografado. Tancredo Neves empurrou goela abaixo o dispositivo espúrio do parlamentarismo para Jango. Enfurecido, o governador Brizola queria prender Tancredo em Porto Alegre. Estava certo. Santiago Dantas chapou no uisque de Gordon e conspirou contra Jango, era a Virgem Maria dos brasilianistas, esquerda responsável, Brizola era a esquerda radical para Kennedy, que preferia Adhemar de Barros. Vaidoso, depois ministro de Sarney, o antimaxista Celso Furtado com seu plano Trienal foi o anti-Brizola das reformas de base. Eis a definição lapidar de Brizola sobre 1964: "Um golpe de interesses americanos com tropas brasileiras".

          A vida de Leonel Brizola é a prova de que o golpe de 64 ainda continua com o governo Lula. Os partidos de esquerda, influenciados pelo catecismo da caridade, dissociam a questão social da nacional. Cidadania virou ridícula palavra. Tudo é visto sob o prisma de uma mi stificada vontade. Que os privilegiados ofereçam as sobras para os "excluídos", tenham pena dos subdesenvolvidos. Assim, mundo rico e mundo pobre perdem suas conexões causais, ou seja, entre a riqueza e a pobreza desaparece inteiramente o nexo de exploração. A isso dá-se o nome de ideologia petucana.

          Brizola se autodefiniu: "sou um homem empírico", para sublinhar que vinha de longe. O empiriobriz22_brizolaolismo convive com o revolucionário intelectual. Brizola leu artigo de Andre Gunder Frank sobre a remessa de capital. No Rio, trocaram amabilidades teóricas quanto ao desenvolvimento do subdesenvolvimento, daí resultou a expressão "perdas internacionais". O ineliminável subdesenvolvimento crescente dentro do sistema capitalista mundial só tem uma saída: a revolução socialista.

24 de jan de 2010

Enquanto isso, no Haiti…

Aproveitando-se da situação vivida pelo Haiti nos últimos dias, os EUA se estabelecem militarmente nos país – logo serão 20 mil soldados das forças armadas estadunidenses impondo seu domínio sobre um país arrasado por séculos de exploração e, agora também, por terremotos.

Muitos talvez perguntam-se: o que os EUA poderiam querer com o Haiti? Sem motivação econômica direta, o Haiti é na verdade uma país estratégico; a verdadeira motivação transcede as fronteiras haitianas. O objetivo principal dessa ocupação é assegurar o domínio político, econômico e militar da América Latina. Com sua presença na Colômbia, recentemente em Honduras e agora no Haiti, os EUA criam um cerco à nossa região e, em especial, ao movimento revolucionário de países como Bolívia, Ecuador, Nicarágua e Venezuela.

17 de jan de 2010

Enquete encerrada

Após 6 meses de votação, encerramos a enquete “Que tipo de mudanças na Política Econômica seriam mais eficazes para promover o desenvolvimento?”. Os resultados foram os seguintes:

- Conjunturais (expansionismo fiscal e monetário): 37%

- Estruturais (controle de capitais, regime de câmbio fixo subvalorizado, etc.): 62%

Dos 37 votos, 23 entendem que arrancar uma planta daninha pela raiz é bem mais eficaz do que aparar as pontas cada vez que ela cresce!

 

…E Começa a valer hoje a nova enquete, com vigência até 30 de junho. A pergunta é:

Qual é o rumo político-econômico ideal para o Brasil no pós-crise?

- Continuar como está

- Novo-desinvolvimentismo nacionalista

- Novo-liberalismo cosmopolita

Participe!

23 de dez de 2009

Nosso Norte, é o Sul!

Alguns aventureiros saídos do místico curso de Economia da UFSC estarão em viagem pela Amércica do Sul portando apenas leves e confortáveis mochilas. Eles compartilharão suas experiências neste blog:

http://trotamerica.wordpress.com/

Acompanhem!

7 de dez de 2009

O Processo de desnacionalização das empresas brasileiras

          A recente fusão entre Casas Bahia e o grupo Pão de Açúcar, controlador do Ponto Frio, é mais um capítulo de um gradual e perigoso processo: a desnacionalização das empresas brasileiras. É óbvio que tamanha operação – que cria um grupo de 40 bilhões de pão de açucar e casas bahia Reais – já estava sendo planejada há muito tempo, a compra do Ponto Frio pelo Pão de Açúcar no início de junho é emblemático disso. O grupo Pão de Açúcar é conhecido por ser “a empresa da Família Diniz” desde que foi fundada no fim da década de 40, sendo hoje comandada por Abílio Diniz, que emitiu ações da empresa em 1995 na Bovespa, em 1997 em Nova York, mas foi em 2005 que o grupo Francês Casino adquiriu 50% do total de ações do Pão de Açúcar, sendo 34% com direito a voto, tendo assim a maioria dos votos; o contrato firmado com Abílio Diniz prevê ainda que a partir de 2012 os franceses passem definitivamente a comandar os negócios. Outros exemplos recentes marcantes do processo de desnacionalização são a compra da Garoto pela Nestlé e da Sadia pela Perdigão (que é controlada por um fundo de investimentos estrangeiro), que também já havia adquirido a Batavo entre outras empresas.

          Aponto três fenômenos como causas desse processo de desnacionalização:

          Por um lado, temos a tendência à centralização do capital. Ou seja, a concorrência entre as empresas em nível global e a existência de crédito são fatores propulsores de uma tendência natural no capitalismo que é a de as empresas se tornarem cada vez maiores. As empresas precisam crescer muito, fundirem suas operações e conquistar muitos sócios como requisitos para sua própria sobrevivência. No mundo atual é cada vez maior a quantidade de atividades em que é necessário um capital inicial muito grande para iniciar o negócio. Portanto o processo de desnacionalização pode ser entendido como um fenômeno que opera dentro dessa tendência à centralização. Concomitante a essa tendência temos a etapa superior do Capitalismo a que chamamos Imperialismo, onde as empresas dos países centrais precisam expandir suas operações para os países periféricos por conta da saturação dos mercados tradicionais, levando esses países a uma situação de dependência. A ação política e militar dos países centrais lançam esforços no sentido de garantir que não haja complicações para esse movimento.

          Em segundo lugar, o fato de os juros no Brasil serem drasticamente mais altos do que a média dos países desenvolvidos, leva a uma concorrência desleal daquelas empresas globais que conseguem juros baixos nos seus países, enquanto as nossas tem de pagar um preço muito alto pelo crédito. Não obstante, torna-se mais vantajoso para os brasileiros aplicar em fundos de investimentos do que investir no processo produtivo. Por exemplo, digamos que eu tenha um dinheiro e quero investi-lo, entretanto se eu aplicar numa indústria, não terei rentabilidade superior a 5% ao ano, aplico então em títulos da dívida pública que pagam 8% ao ano e em vez de contribuir para o crescimento do país, meu capital se torna improdutivo. Como mostrou Keynes, é necessário que a eficiência marginal do capital esteja acima da taxa de juros para que haja boas expectativas e, portanto, investimento.

          Um terceiro problema – esse é crucial – é a inexistência de instituições responsáveis por esse tipo de regulação além da falta de medidas governamentais efetivas para barrar o processo. O CADE, por exemplo, serve apenas para analisar a concentração de mercado, o nível de concorrência, mas não é de sua competência investigar o grau de internacionalização do capital. Os representantes do Pão de Açúcar e das Casas Bahia dizem estar tranqüilos em relação ao CADE, pois “serão apenas mil lojas, de vinte mil que existem no Brasil”, como ressaltou um deles - eles já sabem que a fusão será aprovada. Outros tipos de instituições que poderiam conter o processo de desnacionalização como controle de capitais, legislação tributária diferenciada para as empresas nacionais, também são inexistentes; apenas alguns setores específicos é que há legislação determinando a fatia máxima de participação estrangeira e mesmo esses vem sendo derrubados ao longo do tempo.

          Como faltam instituições, conter o processo de desnacionalização depende basicamente da boa vontade do governo, aí chegamos ao que ocorre no Brasil: ora há incentivo, ora há entreguismo. Vargas, Jango, Geisel e Itamar Franco são exemplos de governos mais comprometidos com o fortalecimento das empresas de capital nacional, a maioria dos governos, portanto, deixou a questão em segundo plano ou remaram contra a maré (em especial os governos Dutra, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Figueiredo, Collor e FHC). Esse vai e vem leva, em primeiro lugar a dificuldade de um novo governo reassumir a postura nacionalista (em grande parte também devido à estrutura internacional do imperialismo) e em segundo lugar falta de expectativa em relação ao futuro, sem falar na instabilidade monetária, fiscal, social e política. A solução, portanto, é que se estabeleçam instituições sólidas, eficientes, seguras e duradouras para preservar e fortalecer as empresas nacionais, requisito básico para a riqueza e soberania do Brasil.

15 de out de 2009

A Reforma Agrária e as Laranjas da Cutrale

          Nos últimos dias temos sido insistentemente informados pela mídia, em especial pela Globo e pela revista Veja, a respeito de um “crime” cometido por uma entidade “sem personalidade jurídica”, que invadiu uma “propriedade privada” que “gerava riquezas para o Brasil” via exportações e criação de empregos. Pois bem, a mesma mídia, que por sinal tem personalidade jurídica e responde judicialmente por seus crimes,  se esquece de dizer que as terras, supostamente da Cutrale, são, na verdade, públicas – foram griladas. Se esquece de dizer que os EUA e toda Europa já fizeram suas reformas agrárias no século XIX. Se esquece de dizer que o que realmente gera progresso para um país é, antes de tudo, o mercado interno. Se esquece de dizer que o grande latifúndio agroexportador é um mal crônico no Brasil e enquanto não for superado, será uma instituição mantenedora da nossa condição de país subdesenvolvido, exportador de bens primários, importador de bens manufaturados – ou seja, um país que não desenvolve suas forças produtivas nacionais (ver G.F. List “Sistema Nacional de Economia Política). Segundo o economista João Pedro Stélide, lider do MST, em entrevista à Folha de São Paulo, mais de 90% da produção da Cutrale, é destinada à exportação. A mídia colonizada se esquece de dizer que o modelo de pequena propriedade familiar é o modelo historicamente predominante nos países desenvolvidos, diferente do que ocorreu nos países da América Latina, desde o princípio escravovratas (ver Eric Williams “Capitalismo e Escravidão” e Sérgio Bagú “Economia de La Sociedad Colonial”). Mesmo no Brasil, onde houveram colônias de povoamento, como no Oeste do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a distribuição de renda é mais equitativa. O MST, ao destruir os pés de laranja, dá uma mensagem clara: não está interessado no agronegócio exportador, quer, isso sim, a pequena propriedade familiar, modelo imprescindível para a grandeza do Brasil.

          É obvio que o modelo de reforma agrária no Brasil é falido. No nordeste, por exemplo, o governo compra terras superfaturadas no árido sertão, coloca um assentado, que meses depois, pra não morrer de fome, se obriga a vender o arrame da cerca e migrar para a cidade a procura de um emprego. Dá-se a terra, mas não se dá as condições adequadas para produção. Pior ainda, coloca-se a pequena propriedade ao lado do grande latifundio – mais cedo ou mais tarde o latifúndio arrenda ou incorpora a pequena propriedade, é uma tendência natural à centralização do Capital (ver K. Marx “O Capital” – Tomo II - capítulo XXIII). A pequena propriedade precisa estar rodeada de outras pequenas propriedades, pois só assim se desenvolverá o espírito cooperativo entre as famílias produtoras, só assim é possível uma verdadeira ação governalmetal ou comunitária em prol da melhoria dos métodos de produção e comercialização dos produtos. Técnicos agrícolas e agrônomos auxiliando essas famílias, por exemplo, é algo indispensável. Há uma proposta muito interessante da Abimac (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), que visa incluir no ensino básico brasileiro uma disciplina denominada Técnicas Agrícolas. Estão aí alguns exemplos de ações que precisam ser incluídas no nosso modelo de reforma agrária.

          Na verdade, a Reforma Agrária está esquecida no Brasil há muito tempo. O MST tem um papel importante como movimento social contestatório desse desleixo. Não se pode culpar tal movimento pelos probemas que realmente ocorrem, como os campesinos que vendem as terras ganhas e voltam ao movimento, pois, como disse, isso é um problema do modelo brasileiro, que dá a terra, mas não dá as condições adequadas para o desenvolvimento produtivo dessas terras. Qualquer assentado que tenha no campo uma vida agradável, com condições adequadas de subsistência, jamais deixará sua terra. Não se trata apenas de distribuir terras, é preciso uma verdadeira revolução no campo.

16 de set de 2009

A Nova Lei de Educação da Venezuela

Enquanto por aqui muito se discute e nada se faz a respeito das reformas tributária e política, nosso vizinho dá mostras de que tem governo comprometido com seu país – num contínuo processo que lhes colocam muito a nossa frente, realizaram a reforma educacional e hoje (16/09/09) começa a valer a nova “Lei Orgânica de Educação” (LOE) da Venezuela.   

Tradução nossa. Original disponível em:

http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/57776-NN/con-nueva-ley-de-educacion-comienzan-las-clases-en-venezuela/

          A despeito da campanha contra a nova legislação, o presidente Hugo Chavez pediu aos professores, pais e à população em geral, que sejam promotores de uma educação formadora de valores que criem nas crianças e adolescentes um compromisso de luta e defesa da pátria.

          O mandatário venezuelano disse, durante a inauguração do Colégio Bolivariano “Cacique de Naiguata” no estado de Vargas (norte), que a nova lei é um instrumento que orienta para que as crianças e jovens estejam conscientes de quais são os grandes objetivos da educação no país.

          Assinalou que a LOE, em seu artigo 15 tem como fins “desenvolver potencial criativo de cada ser humano, para o pleno exercício de sua personalidade e cidadania em uma sociedade democrática [...] comprometida com os processos de transformação social.”

[...]

         O presidente venezuelano assegurou que, todavia, a Venezuela vive uma cultura colonial “onde só os filhos de ricos estudam. Os demais são a pura peble”.

[...]

          Chavez ressaltou que durante o ano de 1998, havia 65 mil docentes inscritos no Ministério da Educação, mas agora já somam 343 mil educadores. “Antes da Revolução tínhamos 44,3 alunos por professor e agora há 13”, assinalou.

          O governo Bolivariano realizou, dias antes do início das aulas, uma feira escolar para vender a preços solidários os materiais escolares, assim a população venezuelana economizou nos gastos.

          No mês passado, grupos de oposição expressaram que não acatariam a lei aprovada pela Assembléia Nacional da Venezuela (AN), pois dizem defender, assim como a Igreja Católica venezuelana, a educação provada frente à proposta de impulsionar um ensino público de qualidade para todos.

[...]

          O ministro da Educação Héctor Navarro, disse que a LOE pretende educar sobre a base da democracia, liberdade e história. “Os fundamentos da educação pretendidos pelo novo projeto em discussão são: a democracia, a liberdade, a herança libertadora e a história caribenha entre outros aspectos”. Da mesma forma, o ministro sustentou que a educação é para formar crenças patrióticas “por que lutar contra isso não tem sentido”.

          Por sua vez, a Comissão Venezuelana de Cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), opinou que a nova Lei de Educação venezuelana é um instrumento para a transformação do sistema educativo, dos princípios humanistas e da defesa dos direitos humanos nos âmbitos políticos, econômicos, culturais e ecológicos.

17 de ago de 2009

A Periferia precisa acordar pra (sua) realidade

          Só na América Latina e na África as grandes empresas combalidas pela crise econômica continuaram ligadas as suas antigas matrizes. Na Europa e na China por exemplo, a GM foi vendida a empresas locais. Na América Latina, em especial, que aos olhos do mundo pertence aos EUA, os lucros das transnacionais por hora são extraordinários graças a desoneração tributária anticíclica adotada pelos governos depois de chantagens do tipo “senão vamos ter que demitir”. Se alguém tinha alguma dúvida de que se deva adotar um eficaz controle de capitais, aliado a uma política monetária que vise a depreciação do câmbio, veja essa matéria da Folha (não tendenciosa), que mostra que desde setembro do ano passado as remessas de lucros aumentaram consideravelmente (no caso de empresas alimentícias, por exemplo, as remessas aumentaram em mais de 700%). É um processo calamitoso, histórico, forjado à custa do empobrecimento dos países periféricos, que agora fica muito mais visível e cuja solução é evidente e necessária. Leia:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u610490.shtml  

          Mas, sei que não é fácil. Getúlio tentou criar a famosa “lei dos lucros extraordinários”, que limitava a remessa de lucros, mas foi boicotado e atacado e a proposta foi barrada no Congresso. Jango novamente se emprenhou em aprová-la, teve até que dar explicações na ONU, e quando tudo paracia que iria dar certo, veio o golpe militar. É sempre assim, os interesses são demasiadamente grandes, por isso os governos evitam tocar no assunto. Mas não dá pra cruzar os braços e esperar surgir um governo com peito pra enfrentar o problema, o desgaste é tão grande que os políticos sempre preferem deixar tudo como está – o que falta é pressão popular, sobretudo da classe empresária nacional, que deveria revindicar essas questões para ganhar competitividade, evitar a tranferência de recursos nacionais, aumentar a capacidade nacional de investimento e, consequentemente, de poupança, que eleva o nível de financiamento e reduz os juros.